domingo, dezembro 05, 2010

A história começa...

 "A infância é medida por sons, aromas e visões, antes que o tempo obscuro da razão se expanda." Jonh Betjaman

O movimento das nuvens sempre aguçou minha imaginação.
Talvez porque o céu não tenha limites.
Talvez porque meus pensamentos nunca desejaram a inércia.
Talvez porque na imensidão azul encontrava a paz que minha mente criativa tanto desejava...
Longe das proibições da escola, longe das borrachas intrometidas apagando a imaginação alheia...
O céu era o lugar perfeito!
Era deitada no quintal, ao lado do banco de madeira...
No extenso balanço sob as parreiras...
Que centenas de histórias eram inventadas.
O céu era como um livro a espera de rabiscos.
Deitada, onde quer que fosse, sentia que aquele infinito com páginas celestinas esperava minha assinatura.

Nesse contexto, nasceu a história do coelho Castão.


O que se segue são minhas vagas lembranças das muitas histórias que inventei deitada no enorme quintal onde nasci e cresci, ao lado dos meus familiares.
Mirava uma nuvem e logo ela já tinha formas, nomes, adjetivos...
Sempre achei que havia algo errado com os meus pensamentos, mas minha mãe dizia que eles eram ligeiros e ricos em imagens. Dessa forma, articulava enredos dignos de uma "pequena contadora de história", assim falava vovó quando minhas primas faziam uma roda para ouvir-me. Todas deitadas com seus olhos direcionados para o céu.

A história do Coelho Castão

Aquele era o coelho Castão. Muito sabido, peralta e vivia aprontando. Quando olhava para o céu e via suas orelhas atrás da grande “Pedra Espetada” - uma nuvem informe cheia de pequenos algodões pontiagudos - sabia que alguma travessura Castão havia aprontado.
Desta vez, ele comeu toda a plantação de cenouras do Rei Pança que o procurava aos berros nas costas do seu robusto elefante.
Sua voz era rouca e exageradamente grave!
Parece que o vento adivinhou que os passos largos e pesados do elefante iriam passar pelas campinas e assoprou bem forte espalhando as nuvens onde os camponeses trabalhavam.
O vento assoprou e o Rei Pança passou rumo a “Pedra Espetada”.
_"Saia daí Castão comilão! Saia e devolva minhas cenouras. Vejo suas orelhas pontudas... Não adianta se esconder!" - Esbravejava o rei Pança.
O vento bem que havia avisado, mas as nuvens que abrigavam os camponeses eram muito curiosas e se aproximavam da “Pedra Espetada” e do Rei Pança.
A nuvem informe cheia de pequenos algodões pontiagudos - a "Pedra Espetada” – se encolhia e as orelhas do coelho Castão ficavam cada vez mais visíveis sob os raios refulgentes do sol.
Sentindo-se encurralado, o coelho Castão começou a gritar: _ "Nem mais um passo elefante Trompete! Pare de andar e se afaste carregando esse rei barrigudo, caso contrário, o segredo das cenouras será revelado".
A tromba do Trompete esticou como um elástico.
A tromba era uma nuvem muito comprida que quase fundiu-se com a “Pedra Espetada” - lembram? Aquela pedra com algodões ponteagudos que servia de esconderijo para coelho Castão.
Todo esse esforço do elefante Trompete só para calar o tagarela Castão, mas foi tudo em vão!
O céu virou uma anarquia! 
O rei Pança começou a inflar como se fosse um balão e exigia explicações.
Até o vento que queria distância  foi metediço. Ligeiro, ele empurrou todas as nuvens tornando a confusão ainda maior.
O rei inflava... A trompa do Trompete esticava... As nuvens camponesas de ouvidos atentos chegavam cada vez mais perto, pois queriam saber qual era o grande segredo que coelho Castão iria revelar.
Decidido o coelho Castão gritou para o rei Pança : "_Suas cenouras estão na tromba do Trompete. Ele as esconde, pois não aguenta carregar um rei com essa volumosa pança! Você é pesado demais!"
O elefante Trompete com um estrondoso grito expulsou as cenouras pela sua tromba.
Assistindo tamanha traição, o rei Pança inflou, inflou, inflou... E ao inflar, ele ficou ainda maior e todas as nuvens se encontraram provocando uma verdadeira explosão!
Depois, o silêncio! - Psiu! - O céu se acalmou e as nuvens, agora, pareciam minúsculas, pois é isso que acontece quando todas as nuvens explodem. 
A tromba do Trompete espalhou as cenouras pelas plantações e tirou o coelho Castão de mais uma enrascada.
Amanhã o rei Pança escreverá um novo decreto, proibindo que as cenouras aumentem sua barriga, mas só amanhã, pois nesse momento, o rei inflado descansa em seu castelo, porque explodir provoca bocejos e sono.

O sol foi descansar, o rei Pança ligou o seu abajur e também adormeceu na sua enorme cama.
Todos do reino sabiam que ele dormia, pois bastava colocar o abajur na tomada real que as estrelas acendiam e iluminavam o céu inteiro. Assim, nascia a noite estrelada...

Danielle Faria.


Espero que tenham gostado! Abraços!
 

5 comentários:

  1. Adorei a história, e a escolha do video também. Toquinho e Dani me conduziram ao túnel do tempo rsrs...

    ResponderExcluir
  2. Por que não escreve livro infantil?

    ResponderExcluir
  3. Dani, dani, dani... suas palavras sempre soam como música...

    Aquarela lembra minha infância, os desenhos em cima da música e mesmo quando cantei ela no coral

    ResponderExcluir
  4. É incrível como vc consegue com suas letras nos encantar. Me fez recordar quando brincava com minhas irmãs para saber quem conseguia achar mais animais entre os muitos formatos nas nuvens, foi muito bom lembrar. Já te disse antes e repito, suas histórias são carinhos feitos em nossas lembranças. Parabens.

    ResponderExcluir